TRANSLATE

15 de abril de 2010

Argentina - Córdoba - 5109km

 

ARGENTINA - Córdoba










Pedalar por Córdoba, na Argentina, montado em uma Dahon Curve, é uma experiência que mistura o rigor da geografia com a delicadeza de uma cidade que respira história e juventude. Córdoba não se entrega facilmente; ela está encravada no coração das serras, protegida por um isolamento geográfico que, durante séculos, moldou seu caráter de "La Docta", a cidade sábia e universitária. Chegar até aqui saindo de Buenos Aires ou do litoral santafesino é um exercício de paciência e resistência. São centenas de quilômetros de planícies infinitas que, gradualmente, começam a se dobrar em ondulações, revelando o isolamento de uma metrópole que cresceu longe dos portos e das brisas marítimas.

O isolamento geográfico de Córdoba é sentido no clima seco e na distância que a separa de outros grandes centros. Para o viajante que decide atravessar essas distâncias, a chegada à cidade é uma recompensa. Entrar na capital cordobesa com uma bicicleta dobrável exige estratégia. A Dahon Curve, com suas rodas de 16 polegadas, é uma mestre na agilidade urbana, mas as subidas e descidas das "lomas" cordobesas testam as marchas internas e o fôlego do ciclista. O relevo não é plano como em Buenos Aires ou La Plata; Córdoba tem textura, tem inclinação e tem um asfalto que guarda o calor das serras.

A rede cicloviária de Córdoba tem passado por um processo de expansão necessário para atender à enorme população universitária. Pedalar pelas "bicisendas" que margeiam o Rio Suquía (também chamado de Rio Primero) é o melhor caminho para entender a conexão da cidade com a natureza. A ciclovia que acompanha o rio é um corredor vital que corta a cidade, permitindo que a pequena Curve flua por quilômetros longe do tráfego caótico das avenidas centrais. O sentimento é de estar em um oásis urbano, onde o som da água corrente abafa o ruído dos ônibus coloridos.

Os pontos turísticos de Córdoba são marcos de uma era em que a cidade era o epicentro cultural do interior. A Manzana Jesuítica, declarada Patrimônio da Humanidade, é uma parada obrigatória. Dobrar a Dahon e caminhar pelos pátios da Universidad Nacional de Córdoba, a mais antiga do país, é sentir o peso de séculos de conhecimento. A Catedral, situada em frente à Plaza San Martín, é outra joia arquitetônica onde o barroco e o neoclássico se encontram. A agilidade da dobrável permite que você pule da história colonial para a modernidade do Paseo del Buen Pastor em questão de minutos.

O Buen Pastor, no coração do bairro de Nueva Córdoba, é o ponto de encontro da juventude. Ali, entre as fontes de água e a antiga capela transformada em centro cultural, a Dahon Curve atrai olhares curiosos. "Es de juguete?" (É de brinquedo?), perguntam os estudantes que tomam mate sentados na grama. A resposta vem na pedalada seguinte, quando a bicicleta sobe com facilidade em direção ao Parque Sarmiento, o pulmão verde da cidade, projetado pelo paisagista Carlos Thays, onde as ciclovias serpenteiam entre roseirais e lagos artificiais.

Mas pedalar em Córdoba exige combustível, e a gastronomia local é robusta e cheia de identidade. O prato que define a alma da região é o Cabrito de Quilino, uma carne tenra e saborosa que reflete o ambiente serrano. Após uma manhã de esforço nas subidas, sentar-se para um almoço que inclua empanadas cordobesas — que se diferenciam das demais por serem mais suculentas e, por vezes, levarem passas de uva e um toque de açúcar — é um prazer indescritível. O sabor é uma mistura de doce e salgado que confunde e encanta o paladar brasileiro.

E não se pode falar de Córdoba sem mencionar a bebida que é o verdadeiro combustível social da cidade: o Fernet com Coca. Embora seja uma bebida, em Córdoba ela é tratada como um prato típico fundamental. Ver os grupos de amigos preparando a "viajera" (uma garrafa plástica cortada ao meio para levar a mistura) é presenciar a cultura local em sua essência. Para acompanhar, um choripán das barracas do Parque Sarmiento, considerado por muitos como o melhor da Argentina, com molhos generosos e pão crocante.

A surpresa das frutas em espanhol continua sendo um deleite linguístico nas feiras de bairro. Pedir um quilo de damascos (damascos frescos) ou pelones (uma variedade de nectarina) para levar na mochila da bike garante a hidratação necessária para o ar seco da montanha. O consumo de sucos naturais, os licuados, é altíssimo, especialmente os de durazno (pêssego) e manzana (maçã), que parecem ter um sabor mais intenso devido à proximidade com as zonas produtoras de fruta das serras.

A vida em Córdoba tem um ritmo próprio, ditado pelo "tunga-tunga" do Cuarteto, o gênero musical que nasceu aqui e que faz a cidade vibrar aos fins de semana. Pedalar à noite pelos bairros de Güemes, com suas lojas de design e bares boêmios, é ver uma Córdoba que se recusa a ser apenas uma relíquia histórica. A Dahon Curve se torna o acessório perfeito para essa exploração noturna; você pode entrar em uma galeria de arte, dobrar a bike no canto e sair para um concerto de piano logo em seguida.

Apesar da dificuldade do acesso e da distância dos grandes portos, Córdoba prova que o isolamento pode ser um berço para a originalidade. A cidade não tenta imitar ninguém; ela é orgulhosamente cordobesa. A rede de ciclovias, embora ainda enfrentando os desafios de uma topografia acidentada e de um planejamento urbano que privilegiava carros, está vencendo a batalha. Cada nova conexão de faixa amarela no asfalto é uma vitória para o ciclista urbano.

Encerrar a viagem pedalando em direção à periferia, onde as serras começam a desenhar o horizonte azulado, traz uma sensação de dever cumprido. A Dahon Curve, com seu quadro compacto e engenharia inteligente, superou o calor, a secura e as ladeiras da "Docta". Córdoba, com seus números de ruas que se cruzam em ângulos retos e suas diagonais que levam ao saber, fica gravada na memória como um lugar onde a tradição jesuíta e a rebeldia universitária pedalam juntas, sob o sol forte do coração da Argentina. No final, basta dobrar a companheira de alumínio e se preparar para a longa jornada de volta, levando na alma o sabor do Fernet e o som do vento nas serras.


Nenhum comentário:

Postar um comentário