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23 de março de 2014

Bolívia - La Paz - 6541km













Salteña - US$2,00 (Salgado com Recheio que pode ser
de Porco, Queijo ou Frango)






Começo - Puerto Quijarro-BO
Final - Tripartito-CH
Distância Parcial - 2951km
Distância Total - 6541km (ônibus +carona + bicicleta)
Bicicleta - Bicicleta Dobrável Porto Seguro 16"

São Paulo-BR >>> Campo Grande-BR
995km - ônibus (R$182,00 / Motta Express *** 24 horas)

Campo Grande-BR >>> Puerto Quijarro-BO
426km - Carona com Caminhoneiro

Puerto Quijarro-BO >>> La Paz-BO
1530km - Carona com Caminhoneiro

La Paz-BO >>> Desaguadero-Lago Titicaca-PE
110km - bicicleta

Desaguadero-Lago Titicaca-PE >>> Tripartito-CH
220km - bicicleta

Tripartito-CH >>> La Paz-BO
330km - ônibus

La Paz-BO >>> São Paulo-BR
2930km - ônibus (R$440,00 / Viação La Preferida *** 72 horas)


Total: 6541km
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Ônibus: 4255km
Carona: 1956km
Bicicleta: 330km

Pedalar pela Bolívia com uma bicicleta dobrável de aro 16 é um exercício de humildade e resistência que desafia todas as leis da lógica convencional. Se na Argentina as retas eram infinitas, na Bolívia o mundo se dobra em ângulos verticais, onde o oxigênio é um luxo e a geografia parece ter sido desenhada por um gigante inquieto. Atravessar esse país sobre rodas tão pequenas é uma jornada de contrastes absolutos, onde a fragilidade do equipamento encontra a imensidão bruta dos Andes.

A geografia boliviana é uma das mais dramáticas do planeta. Ao cruzar a fronteira, o ciclista é recebido pelo **Altiplano**, uma planície de altitude que flutua a mais de 3.600 metros acima do nível do mar. O horizonte é dominado por picos nevados que parecem vigiar cada pedalada. O vento é constante e cortante, soprando contra as rodas pequenas da dobrável, que, apesar do tamanho, mostram-se valentes. A falta de proteção aerodinâmica em uma bicicleta compacta é compensada pela sua agilidade em desviar das pedras e irregularidades das estradas que, muitas vezes, perdem o asfalto sem aviso prévio.

O maior desafio, contudo, não é o terreno, mas o **soroche**, o mal da altitude. Pedalar a 4.000 metros transforma o ato simples de respirar em uma tarefa consciente e pesada. Cada subida exige um ritmo de metrônomo; se você acelera o coração, o pulmão reclama o ar que não existe. A cabeça lateja e as pernas parecem feitas de chumbo. Aqui, a dobrável aro 16 torna-se uma aliada psicológica: como o esforço de giro é diferente, você é forçado a manter uma cadência alta e constante, sem tentar vencer a montanha pela força bruta, mas pela persistência. O segredo é o consumo constante de **folha de coca**, seja mascando ou em forma de chá (*mate de coca*), que ajuda a dilatar os vasos e manter o sangue fluindo onde o oxigênio escasseia.

Ao chegar em **La Paz**, a sensação é de entrar em uma cratera lunar densamente povoada. A cidade é um labirinto vertical. As ladeiras são tão íngremes que desafiam qualquer sistema de marchas. Aqui, a praticidade da dobrável brilha: em vez de sofrer em subidas impossíveis, basta dobrar a bicicleta e entrar em uma cabine do **Mi Teleférico**. Ver a cidade de cima, com a bike no colo, flutuando sobre os telhados de tijolos aparentes enquanto se atravessa de El Alto para o centro, é uma das experiências urbanas mais fascinantes do mundo. O sistema de teleféricos é a "ciclovia aérea" da Bolívia, integrando a cidade de uma forma que nenhuma ciclovia no chão conseguiria.

A gastronomia boliviana é o combustível denso necessário para esse esforço. O dia começa obrigatoriamente com uma **Salteña**. Diferente da empanada argentina, a salteña é uma obra-prima de engenharia culinária: um caldo suculento e quente encapsulado em uma massa doce e firme. É preciso técnica para comer sem se sujar, algo que o ciclista aprende rápido nas calçadas de La Paz. Outro prato onipresente é o **Pique Macho**, uma montanha de carne de rês, salsichas, batatas fritas, cebola, locoto (pimenta brava) e ovo cozido. É uma bomba calórica que reconstrói as fibras musculares após um dia de vento frontal no altiplano.

A surpresa nos nomes continua. O que chamamos de suco, aqui pode ser o **Mocochinchi**, uma bebida refrescante feita de pêssego desidratado e canela, servida bem gelada nos mercados. E os mercados são o coração da vida boliviana. Pedalar entre as "cholitas" com suas saias rodadas e chapéus-coco é mergulhar em um comércio vibrante de cores e aromas. O consumo de batatas é impressionante; a Bolívia possui centenas de variedades, incluindo o **Chuño**, a batata liofilizada pelo sol e pelo gelo, que tem um sabor terroso e único, acompanhando quase todos os guisados.

Saindo do caos de La Paz e indo em direção ao **Salar de Uyuni**, a geografia muda novamente. Pedalar sobre o maior deserto de sal do mundo é como flutuar no vazio. O branco é tão puro que se perde a noção de distância e escala. As rodas de 16 polegadas deixam rastros finos na crosta salina, e o silêncio é interrompido apenas pelo estalar do sal sob a pressão dos pneus. É um lugar de beleza surreal, mas perigoso; o reflexo do sol queima a pele em minutos e a desorientação é constante. Aqui, a bicicleta dobrável parece um objeto de outro mundo, uma pequena máquina minimalista perdida na vastidão branca.

A rede cicloviária na Bolívia ainda é um conceito em estágio inicial se comparada a Buenos Aires, mas o respeito pelo ciclista de carga é real. Como muitos bolivianos usam a bicicleta para trabalho, o viajante na dobrável é visto com uma mistura de curiosidade e camaradagem. Nas estradas que levam aos **Yungas**, a transição do altiplano para a selva, a descida é vertiginosa. Você sai do gelo dos 4.700 metros para o calor úmido dos 1.200 metros em poucas horas. Os freios da aro 16 são postos à prova constantemente nas curvas fechadas da antiga "Estrada da Morte", hoje uma rota cênica para ciclistas.

A vida litorânea na Bolívia, ironicamente para um país sem mar, acontece no **Lago Titicaca**. Pedalar pelas margens de Copacabana é sentir a umidade da água doce e a luz intensamente azul que só existe naquela altitude. O consumo de **Trucha** (truta) fresca do lago, preparada na manteiga ou com alho, é o prato refinado da região. Ver o pôr do sol sobre o lago, com a silhueta da cordilheira ao fundo, faz todo o sofrimento da subida valer a pena.

A Bolívia exige resiliência. Não é uma viagem de conforto, mas de autodescoberta. O isolamento geográfico de suas cidades, as ruas numeradas de alguns bairros planejados em El Alto e a onipresença da cultura indígena fazem com que cada quilômetro pareça uma conquista. A Dahon, com sua capacidade de se tornar pequena, permitiu que eu atravessasse mercados lotados, entrasse em vans apertadas (*trufis*) quando a tempestade apertava e descansasse em quartos de pensões humildes onde uma bicicleta comum não caberia.

Pedalar de aro 16 pela Bolívia é entender que o tamanho das rodas não limita o tamanho do sonho. Entre o frio do salar e o calor dos vales, entre a salteña e o pique macho, a bicicleta foi a chave que abriu as portas de um país que guarda sua beleza atrás de montanhas gigantescas e um ar rarefeito. É uma jornada onde a lógica se dobra, o ar falta, mas a alma transborda a cada nova curva do caminho andino. Ao final, resta o pó branco do sal e a terra vermelha dos vales impregnados na corrente, lembranças de um país que desafia a gravidade e o tempo.

Aqui realmente começou a aventura e o sonho de liberdade pedalando pro infinito. Um fato muito importante a ser considerado é que ao contrário de viagens regionais e nacionais onde minha esposa me apoia parcialmente pois tem um certo controle sobre minhas atividades diárias, em situações de viagens internacionais de bicicleta ela e toda a família são totalmente contra minhas viagens e ausência. Mesmo deixando todas a contas da casa pagas, dinheiro com a esposa e nunca tendo me acidentado, ela impôs que essa fosse a última viagem de bicicleta internacional alegando que é para minha própria segurança...

Bom, eu já estou aqui viajando, não fiz nada de errado, estou cumprindo os 10 mandamentos a risca e não estou fazendo nada de ilegal.. então vamos continuar avançando. Nesse momento já havia me despedido do Sr. Mário em La Paz, sabendo que poderia pedalar a tríplice fronteira de forma dinâmica e ainda ter chance que encontrá-lo antes dele retornar de caminhão para voltarmos juntos.. ele me deu essa opção...

Conheci alguns pontos turísticos da cidade que parece ficar num vale no topo da montanha, não tive mal de altitude e me senti até mesmo bem... algumas vezes saiu um pouco de sangue do ouvido e nariz... mas tudo bem, chegar ao Lago Titicaca foi um alívio... mas essa cobrança infinita de minha esposa para eu voltar logo para casa tem me desconcentrado da viagem... as vezes chego a pensar que ela quer me ver trabalhando sem parar noite e dia apenas para satisfazer sua própria vaidade... será que conseguirei descansar nas minhas férias....ou continuarei a ser cobrado moralmente mesmo a distância?

Enfim, locais de visitação obrigatória são a Igreja de São Francisco e a  Praça Murillo... ao fundo sempre as Cordilheiras dos Andes... confesso que "descer" um pouquinho para o Lago Titicaca será um alívio... e posteriormente para a Triplíce Fronteira será um sonho realizado, mas também tenho consciência que será muito sobe e desce... "vamo que vamo"...



Altimetria - Brasil > Bolívia > Peru > Chile (ida e volta)


BOLÍVIA - Puerto Quijarro
BOLÍVIA - La Paz
PERU - Lago Titicaca
CHILE - Tripartito



ROTEIRO COMPLETO

BRASIL (SP)
* Santo André * São Caetano do Sul * São Paulo * Osasco * Barueri * Santana de Parnaíba * Pirapora do Bom Jesus * Cabreúva * Itu * Porto Feliz * Tietê * Laranjal Paulista * Conchas * Botucatu * São Manuel * Lençóis Paulista * Agudos * Bauru * Avaí * Pirajuí * Lins * Promissão * Penápolis * Birigui * Araçatuba * Guararapes *  Bento de Abreu * Valparaíso * Mirandópolis *
Guaraçaí * Andradina * Castilho *

BRASIL (MS)
* Três Lagoas * Água Clara * Ribas do Rio Pardo * Campo Verde * Campo Grande * Dois Irmãos do Buriti * Aquidauana * Miranda * Corumbá *

BOLÍVIA
* Puerto Quijarro * Puerto Suárez * El Carmen Rivero Torres * Santa Ana De Chiquitos * Roboré * San José de Chiquitos * Paílon * Puerto Pailas * Santa Cruz de la Sierra * La Guardia * El Torno * Jorochito * Samaipata * Mairana * Comarapa * Totora * Vacas * Arani * Punata * Sacaba * Cochabamba * Sipesipe * Morochata * Chulumani * Yanacachi * La Paz * Tihuanacu * Guaqui * 

PERU
* Desaguadero * 

CHILE
* Tripartito * 

PERU
* Desaguadero * 

BOLÍVIA
* Guaqui * Tihuanacu * La Paz * Yanacachi * Chulumani * Morochata * Sipesipe * Cochabamba * Sacaba * Punata * Arani * Vacas * Totora * Comarapa * Mairana * Samaipata * Jorochito * El Torno * La Guardia * Santa Cruz de la Sierra * Puerto Pailas * Paílon * San José de Chiquitos * Roboré * Santa Ana De Chiquitos * El Carmen Rivero Torres *  Puerto Suárez * Puerto Quijarro *

BRASIL (MS)
* Corumbá * Miranda * Aquidauana * Dois Irmãos do Buriti * Campo Grande * Campo Verde * Ribas do Rio Pardo * Água Clara * Três Lagoas *


BRASIL (SP)
* Castilho * Andradina * Guaraçaí * Mirandópolis * Valparaíso * Bento de Abreu * Guararapes * Araçatuba * Birigui * Penápolis * Promissão * Lins * Pirajuí * Avaí * Bauru * Agudos * Lençóis Pauslita * São Manuel * Botucatu * Conchas * Laranjal Paulista * Tietê * Porto Feliz * Itu * Cabreúva * Pirapora do Bom Jesus * Santana de Parnaíba * Barueri * Osasco * São Paulo * São Caetano do Sul * Santo André *



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